25 July 2011 @ 06:42 pm
O que é YAOI? Etimologia, origem e interpretações  
O que é YAOI?

"yama nashi, ochi nashi, imi nashi" (「ヤマなし、オチなし、意味なし」), que significa "sem clímax, sem resolução, sem significado", forma o acrônimo YAOI na língua japonesa, e que foi difundido pelo mundo graças à expansão da internet, proporcionando a importação em massa da cultura nipônica para todos os lugares do mundo, e afetando também o Brasil. A palavra é amplamente utilizada no ocidente para nos referirmos ao gênero "boys love" que ali floresce em mangás e animes referente à relação homoafetiva entre homens.

Um gênero que podemos irmanar a ele é o "shounen-ai", que significa "amor de rapazes", mas cuja significação se difere do boys love embora na tradução acabe sendo a mesma coisa. O shounen-ai é mais usado para romances menos explícitos, aquela coisa de olhares e mãozinhas que se esbarram, geralmente sem nos trazer a imagem de um beijo e tampouco alguma relação sexual, evitando deslindar o amor dos personagens principais embora esteja evidente. Já o YAOI que conhecemos, e que é boys love para os orientais, faz referência a algo muito mais amplo, contendo os mesmos elementos íntimos que o shounen-ai descarta para dar um ar de inocência às histórias.

Eu também tenho o costume de usar a palavra YAOI para me referir a qualquer relação homoafetiva masculina que encontre por aí, por ser mais rápida do que as outras denominações num geral, mas eu não acho certo. A origem do acrônimo é de paródias "bizarras ou brincalhonas" (segundo o Wikipedia) feitas nos anos 70, e que acabou se transformando na referência às infinitas histórias que retratam o romance entre homens ali, no Japão. Não obstante, temos uma etimologia que não se refere realmente à maioria das histórias que já li, pois as mangakas (criadoras de histórias em quadrinhos, no Japão) se preocupam muito com o clímax, a resolução e o significado, e isso não exclui histórias que chamamos de PWP (do inglês "Plot? What Plot?"), que pretende somente as relações sexuais dos protagonistas. Na verdade, parando para pensar, a significação acaba snedo ofensiva se essas tramas contém todos os três aspectos que o YAOI nega em si. Talvez seja a razão pela qual o termo é pouco utilizado no Japão, e me questiono se assim como a palavra "otaku" (fã viciado em desenhos e quadrinhos japoneses) o termo também não é considerado ofensivo para eles. Nos quadrinhos que eu li sobre o gênero, eu sempre vi menções a boys love e shounen-ai, mas nunca o YAOI em si.

O boys love, o shounen-ai e o conteúdo sugestivo

Kaya, cantor japonês, representando o shounen no encarte do álbum GlitterO que também podemos esmiuçar são os termos boys love e shounen-ai. Da mesma forma que a palavra "boy" nos faz pensar em garotos - meninos ou adolescentes -, a palavra "shounen" também figura algo de aspecto semelhante: "Shounen", em japonês, é usado como elogio ou pejorativo para meninos com feições bastante delicadas/ afeminadas, e além dos aspectos físicos, pode ser também aquele menino ou adolescente (em suma, alguém que não seja adulto ou não haja como um, contendo os outros aspectos, obviamente) cuja representação perfeita, para os orientais, é como o Kaya na imagem à esquerda: Roupas que recendem algo infantil, somadas aos trejeitos que seguem tais compleições.

A figura dos garotos shounen é bastante popular no Japão. Você vai encontrá-los em muitos animes e mangás, e até nas ruas. Entre os cosplayers de Harajuku, é muito comum ver meninas adotando o visual e tentando se comportar como esses garotinhos idealizados, talvez, pelas mangakas, mas que não são uma fantasia no mundo nipônico. Eles podem não usar sempre esse visual vitoriano, mas esses rapazes existem, mesmo em idade adulta. Eu mesma, nos meus anos de adoração ao mundo nipônico, pude observar que era verdade, embora a realidade ocidental, talvez por causa do machismo, faça parecer surreal e até "repugnante" quem "se force" a agir dessa forma. Para falar da existência dos shounens, então, vou precisar falar sobre como o Japão vê a homossexualidade.

Antes de falar da homossexualidade em si, devo terminar minhas explanações sobre os ícones das mangakas e das fãs do gênero. Imagino que os que estejam defrontando estas informações pela primeira vez estejam se perguntando se tratar os protagonistas como meninos não sugere a pedofilia. E eu reforço o espanto mencionando o gênero "shotacon", que fala diretamente sobre menininhos (com no máximo quinze anos, eu estimo) que protagonizam romances adultos (com ou sem relações sexuais).

O Japão tem uma visão diferente do que é a pedofilia, e os gêneros shotacon e lolicon (para o caso de meninas) pode até atender aos pedófilos em potencial, mas não significa que seja uma propulsão à prática. Sua função em relação a essas pessoas leva-os em sentido contrário: Dizem que essas leituras servem para prender essas pessoas às páginas em vez das práticas.

Você provavelmente já viu animações em que homens mais velhos se atraem por garotinhas, ou conhece casos reais de pessoas com esse tipo de "fetiche". No Japão isso é muito comum também, mas não exclusivamente sobre as mulheres. Mas seria apenas encarar a ponta do iceberg dizer que esses dois gêneros polêmicos se restringem a pedófilos, assim como é muito indevida a associação exclusiva da homossexualidade ao sexo, descartando os sentimentos das pessoas envolvidas. Falar sobre qualquer coisa do Japão, então, requer a noção primordial de que estamos falando de sentimentos. Os japoneses devem ser os maiores especuladores do coração humano vivos até hoje, e esse é o fundamento filosófico de todos os seus feitos. Um simples kimono, então, não é um pano repleto de estampas. Os desenhos postos ali têm um significado cultural e pessoal tão profundo que está presente nos corações das pessoas, e elas não conseguem se mover sem isto.

Para começar, o gênero "shotacon" (geralmente relacionado à homossexualidade, mas que não precisa sê-lo sempre) e o "lolicon" falam de relações com consentimento. Então, a partir de uma certa idade em que a criança/ adolescente alvo já tem certa consciência do mundo, ela se apaixona por alguém mais velho, ou alguém mais velho se apaixona por ela. Em suma, você vai encontrar um drama da longa diferença de idades que discute a auto-aceitação contra mais um parâmetro da sociedade. O shotacon também pode falar de respeito quando na primeira relação sexual o adulto evita ou dirige enorme preocupação ao parceiro. Quando o shotacon acontece entre meninos da mesma idade, ele retrata o fervor dos primeiros hormônios, naquela época em que as crianças têm o seu primeiro contato com a sexualidade nos livros de escola e ficam curiosos para saber como isso tudo funciona. Enfim, é uma dica importante esmiuçar as imagens que os japoneses nos trazem quando sabemos que são japoneses. É difícil você encontrar algo que seja realmente de mal gosto, embora aparente, até porque eles também são contra essas práticas. Atenção: Não quer dizer que não exista, como foi o caso do "toddlercon", dito doentio pelos próprios orientais por usar personagens ainda bebês em cenas fortes de nudez e estupro (o que podemos interpretar como crítica explícita também, ou não).

Não obstante, os termos boys love e shounen-ai também são usados para tramas de protagonistas adultos - homens de terno e gravata, com uma vida formada, com sugestões físicas de um shounen ou não, que embarcam em algum romance feliz ou dramático. Existem subgêneros como o "bara" (relações em que ambos os personagens do casal são homens de maior encorpadura, no ideal de "machão" que conhecemos) também referidos como dentro do YAOI e, portanto, dentro do boys love. Por quê, então, figuras tão distintas são abarcadas na mesma referência?

A maior sugestão de boys love é a inocência e a pureza, características consideradas infantis e que mal conseguimos preservar na vida adulta, mas que exprime sentimentos com extrema sinceridade e expurgada das influências mundanas. O gênero desmistifica o erotismo que ofusca as relações homoafetivas. Nos mangás, vemos paixões cujo sexo é apenas uma consequência, embora nem sempre ele esteja presente. O que estou querendo dizer é justamente o tipo de enredo trabalhado em histórias de shounen-ai: Durante toda a história o amor-paixão é discutido em palavras (falas ou pensamentos) ou imagens, nas quais os personagens podem se enfiar embaixo de uma coberta diante de uma lareira, cada qual com uma caneca de chocolate quente, e se entreolham com sorrisos que declamam a felicidade que sentem por estarem um com o outro. No gênero em questão, eles também costumam detalhar a ansiedade que o parceiro provoca, a velocidade com o qual o coração dispara após um esbarrar de mãos, etc. Tudo isto está presente também nos mangás onde tudo é mais explícito, com beijos e sexo, mas eu vejo o shounen-ai como sendo primordial para o entendimento dessa essência que separa o gênero boys love de obras do ocidente que falam sobre o tema.

Imagem do mangá Me De Shireru Yoru, de Itsuki KanameLevamos em consideração também que a homossexualidade no Japão pode ter seus preconceitos, mas é considerada normal desde sua época feudal, onde haviam diversas casas de prostituição desses meninos "shounen", também retratadas em mangás. Então, a maior diferença entre as obras ocidentais das orientais sobre o tema é o que você sente quando assiste aquilo tudo. Se você se aprofundar em mangás do gênero e depois procurar algum filme ocidental em que os protagonistas sejam um casal de homens, você vai sentir algo diferente. Um grande peso nessa diferença é a constante luta da homossexualidade por seu espaço neste lado do mundo, então todas as obras acabam abordando o preconceito e as consequências do mesmo, direta ou indiretamente, tentando inculcar nas pessoas que a homossexualidade é normal. No boys love, por sua vez, isso é tão normal que as menções de preconceito acabam se tornando raras (digo em menor número, não inexistentes), e mesmo com isso tudo é trabalhado de maneira diferente, de modo a encaixar o leitor nessa realidade em vez de deixá-lo a parte. A única diferença que eu vejo nos mangás de boys love com aqueles os de "shoujo" (gênero dedicado às meninas, geralmente sendo extremamente românticos) é só uma mudança de protagonistas. Digo porque apesar de ter visto relações bonitas em filmes ocidentais, eu sempre senti que a diferença entre heterossexualismo e homossexualidade ainda é bem enfática, dividindo as pessoas. Quanto aos mangás, em nenhum eu senti a mesma coisa.

O Japão e a homossexualidade

Como dito acima, o Japão convive com a homossexualidade desde os primórdios. Ouvi dizer mais de uma vez, de pessoas próximas que têm contatos com japoneses de verdade ou seus descendentes, que vivem no Japão, que os homens encontram maior prazer com outros homens. Para a veracidade da informação, podemos trazer qualquer anime, voltado para homens ou mulheres, porque eles vão conter alguma sugestão à homossexualidade. Muitos filmes, principalmente os que foram arraigados na cultura (como Azumi, por exemplo) trazem também certas figuras das quais questionamos a "masculinidade".

Hyoga e Shun, Cavaleiros do ZodíacoAs pessoas que não se afeiçoaram ao YAOI provavelmente já escutaram e se irritaram com as fãs que dizem que tais personagens têm alguma relação homoafetiva. Eu sinto dizer que isto não é uma inverdade, e que olhos apurados vão podendo atestar quanto mais animações forem assistidas, pois as referências estão presentes na maioria ou em todas. Eu desde sempre visitei comunidades de Cavaleiros do Zodíaco e ria ou me exasperava com a exaltação dos fãs em refutar à homossexualidade dos personagens, na clássica frase: "Eu tenho nada contra, mas ele não é gay, parem de dizer isso dele". Sabemos que a homofobia existe quando a pessoa diz que "tem nada contra", mas se ofende quando qualquer referência à homossexualidade é abordada.

Kamui e Fuuma, do mangá X/1999Eu vou usar alguns exemplos para amenizar a imagem insana que as fãs do boys love propagaram entre os céticos, então. Em Cavaleiros do Zodíaco temos vários personagens afeminados, homens representando ícones femininos (Shun de Andrômeda), e até usando batom (Afrodite de Peixes). O Afrodite carrega uma rosa, símbolo que os japoneses adoram para marcar a homossexualidade dos personagens na série, como o Bijomaru, do primeiro filme de Azumi. Mas o que eu quero lembrar é que o Shun usou o próprio corpo, deitando-o sobre o de Hyoga, e todo o cosmo, para salvá-lo da morte por congelamento imposta por Camus de Aquário na saga do Santuário. É claro que pode querer dizer nada, mas até correm boatos de que o criador é realmente gay. Podemos pegar então Yu Yu Hakusho, e eu não vou me dirigir ao Kurama e seus "rolos" com Yomi, e às características óbvias (incluindo a rosa), mas ao super vilão Shinobu Sensui e seu fiel aliado Itsuki. Eu nunca vou me esquecer da cena final em que o Itsuki promete ficar pela eternidade com ele embora Sensui tenha sido derrotado. E as menções também estão no jogo Kingdom Hearts II, quando o personagem Axel declara o quanto Roxas é importante para ele antes de sua morte. E em X/1999? O Fuuma adora colocar o Kamui na cruz e roçar as bocas. E Tokyo Babylon? O Seishirou perdeu um olho para salvar a vida do Subaru, e embora eles sejam condenados à rivalidade, o fim de ambos é uma prova de amor explícita em gestos e declações que só não colocam um "eu te amo". E mais uma do grupo CLAMP, e o mais famoso: Sakura Card Captors. Vocês acham mesmo que o Touya e o Yukito eram apenas melhores amigos? Eu poderia ficar listando para sempre essas menções se eu tivesse memória para todas.

A razão de eu ter redigido até aqui, então, foi por comoção à fama nem sempre positiva que o YAOI trouxe, sendo que eu vejo o gênero como uma boa sacada para nos aproximarmos mais do mundo da homossexualidade (entre homens ou mulheres) e das diferenças de personalidade - da liberdade das pessoas em expressar sua natureza, mais ou menos máscula - em vez de nos deixar assistindo à distância. Imagino também que muitas pessoas usem o termo sem realmente entender o que significa, e decidem ingressar "no ramo" como se fosse fácil criar personagens "para fazerem parzinho YAOI", que geralmente terminam em RPGs como ninfomaniacos e heterofóbicos (juro que é comum).

Querer escrever YAOI é primeiro saber a diferença disso para o boys love, perceber as abordagens dos mangás e saber discursar como se fazem nas raízes, ou sua história e devoção é simplesmente direcionada à essa moda louca de hoje em dia de amar a tudo o que for "diferente". A prioridade do boys love não é essa, e sim retratar vidas normais com seus altos e baixos, somando a filosofia nipônica dos sentimentos por seus fundamentos, consequências e, é claro, grandes delibações.